Eu não acredito em Deus, no pai perfeito e de como as pessoas dependem da opinião de Deus. Não quero esse pai perfeito, não quero porra nenhuma perfeita. Eu acho que Deus sou eu, eu sou a consciência divina, você é, todos são. É a maneira como as coisas se revelam. Deus é o abrir e fechar de olhos porque você abre e fecha e muda o mundo da maneira que você se propuser.
- A esse ponto, não posso evitar um suspiro. Há dias em que sou invadido por um sentimento mais negro que a mais negra melancolia - o despreso pelos homens. E, para não deixar dúvida sobre o que e quem desprezo: é o homem de hoje, o homem de quem, por fatal destino, sou conteporâneo. O homem de hoje - seu hálito podre me asfixia. Em relação ao passado, sou, como todos os homens de conhecimento, de uma grande tolerância, ou seja, de um magnânimo controle sobre mim mesmo: pecorro esse universo de casas de loucos com uma morosa circunspecção, chamem isso de ''cristianismo'', ''fé cristã", ''igreja cristã'' - tomo o cuidado de não resposabilisar a humanidade por suas doenças mentais. Mas meu sentimento muda completamente, irrompe desde que penetro na época moderna, nessa época. Nossa época é uma época que sabe... O que outrora era apenas doentio, hoje se tornou indecente - é indecente hoje ser cristão. E é ai que começa meu desgosto. - Olho à minha volta: não resta sequer uma palavra do que outrora se chamava ''verdade''; não suportamos mais que um padre (ou pastor) chegue até mesmo a pronunciar a palavra ''verdade''. Mesmo que se tivesse as mais modestas exigências em matéria de probidade, deve-se saber que um teólogo, um padre, um papa, um pastor, a cada frase que pronuncia, não apenas se engana, mas mente - já não tem mais até mesmo a liberdade de mentir por ''inocência'' ou por ''ignorância''. O padre (ou pastor) também, como qualquer outro, sabe que não há mais ''Deus'', nem ''pecador'', nem ''salvador'' - que ''livre-arbítrio'', ''ordem moral do mundo'' são mentiras: - a seriedade, a profunda alto-superação do espíritonão autoriza mais ninguém à ignorância sobre esse ponto... Todas as noções da igreja são reconhecidas pelo que são, a saber, a mais astuciosa falcificação que possa existir, a fim de desvalorizar a natureza, os valores naturais; o próprio padre (ou pastor) é visto como realmente é, ou seja, a mais perigosa espécie de parasita, a verdadeira aranha venenosa que mata a vida... Sabemos, nossa conciência sabe hoje - o que valem exatamente as invenções inquietantes dos padres (ou pastores) e da igreja, e para que serviram, elas que levaram a humanidade a uma situação de tal desonra de si mesma que seu aspecto provoca náusea - as noções do ''além'', do ''juíso-final'', da ''imortalidade da alma'', da própria ''alma'': são instrumentos de tortura, são sistemas de crueldade que permitiram ao padre (ou pastor) tornar-se mestre e de manter-se como tal... Ninguém o ignora: e mesmo assim nada muda. Para onde foi nosso último sentimento de decência, de respeito de si, quando até nossos homens de Estado, em geral espécie de homens totalmente desprovidos de preconceitos e fundamentalmente anticristãos em seus atos, se intitulam ainda cristãos e participam da ceia sagrada?... Um jovem práncipe à testa de seus regimentos, expressão magnífica do egoísmo e da arrogância de seu povo - mas que, despido de toda vergonha, confessa que é cristão!... Quem é, portanto, que o cristianismo nega? O que ele chama de ''o mundo''? O fato de ser soldado, ser juiz, ser patriota; de se defender; de zelar por sua honra; de procurar a própria vantagem; de ser orgulhoso... A prática de todo instante, todo instinto, toda avaliação convertida em ato são hoje anticristãos: que espécie de aborto de falcidade deve ser o homem moderno para não ter de jeito nenhum vergonha de chamar-se cristão!
(O Anticristo - Nietzsche)