Olhando para uma parede enquanto a cidade ainda dorme imaginando um muro sem pintura, vendo todos os tijolos ajustados numa bem definida sequência uma fila acima da outra como uma hierarquia onde o cimento seco liga um tijolo ao outro formando um muro tão rígido, forte, indestrutível.
Quando o dia amanhece na cidade afora a vida não para e ao nosso redor as pessoas são tomadas pela rotina de cada dia, os carros, as motos, os ônibus lotados, a cidade não pode parar. Essa existência terrena vai tomando seu curso, cada indivíduo seguindo o seu dia corriqueiro, sendo as mesmas pessoas todos os dias.
Somos toda a soma daquilo que nos vimos toda manhã com aquilo que outras pessoas acham que somos todos os dias. Pessoas e mais pessoas que são somente mais um tijolo num muro.
O tempo para quando a vida resolve parar para mim. Somente existe vida quando o tempo por nós é ocupado e eu não faço parte desse muro. Ha! Se eu pudesse seria dois,
um que se levanta toda manhã e sai pela rua tecendo uma rotina e um que vive a contemplar seu próprio mundo que não fala só ouve e sem esforço algum se alegra, mais não sou. Sou o que se pode dizer
um resto de mistura maluca de várias coisas em um, sou tudo ao mesmo tempo nada.
A terra é tão grande e a vida tão curta, existem tantos lugares, tantas realidades, tantas pessoas. Contento-me com esse pedaço de céu acima da minha cabeça. Eu gostaria que cada coisa me pertencesse como se só há essas coisas fosse-me capaz de amar o mundo e a vida, quero todas as coisas e ainda se tivesse tudo minhas mãos estariam vazias. Invejo subitamente todos os tijolos do muro, pois de certo modo sabem seguramente ignorar o tédio.
