A palavra e as coisas (Foucault)

Pertence ao firmamento do homem ser "livre e poderoso", "não obedecer a ordem alguma", "não ser regido por nenhuma das outras criaturas". Seu céu interior pode ser autônomo e repousar somente em si mesmo, sob a condição, porém, de que, por sua sabedoria, que é também saber, ele se torne semelhante à ordem do mundo, a retorne em si e faça assim equilibrar o seu firmamento interno aquele onde citilam as estrelas visíveis. Então, essa sabedoria do espelho envolverá, em troca, o mundo onde estava colocada; seu grande elo girará até o fundo do céu e mais além; o homem descobrirá que contém "as estrelas no interior de si mesmo(...), e que assim carrega o firmamento com toda as suas influências".
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As sete aberturas formam no seu rosto o que são os sete planetas no céu.
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A borrasca começa quando o ar se torna pesado e se agita, a crise, no momento em que os pensamentos se tornam pesados, inquietos; depois as nuvens se acumulam, o ventre incha, o trovão estronda e a bexiga se rompe; os relâmpagos fuminam enquanto os olhos brillham com um fulgor terrível, a cruva cai, a boca espuma, o raio deflagra enquanto os espíritos fazem rebentar a pele; mas eis que o tempo se torna claro e a razão se estabelece no doente.
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À morte, sucede que as coisas e os animais e todas as figuras do mundo permanecem o que são.
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É necessária uma marca visível das analogias invisíveis.
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"Não é vontade de Deus", diz Piracelso, "que o que ele cria para benefício do homem e o que lhe deu permaneça escondido... E ainda que ele tenha escondido certas coisas, nada deixou sem sinais exteriores e visíveis com marcas especiais - assim como um homem que enterrou seu tesouro marca a sua localização a fim de que possa reencontrá-lo". 
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A semelhança era a forma invisível daquilo que, do fundo do mundo, tornava as coisas visíveis; mas para que essa forma, por sua vez, venha até a luz, é necessária uma figura visível que a tire de sua profunda invisíbilidade. Eis por que a face do mundo é coberta de brasões, de caracters, de cifras, de palavras obscuras...
Não é verdade  que todas as ervas, plantas, árvores e outros, prevenientes das entranhas da terra, são outros tantos livros e sinais mágicos". O grande espelho calmo, no fundo do qual as coisas se mirariam e remeteriam umas às outras suas imagens, é, na realidade, todo buliçoso de palavras. Os reflexos mudos são duplicados por palavras que os indicam. E, graças a uma última forma de semelhança que envolve todas as outras e as encerra em um círculo único, o mundo pode se comparar a um homem que fala: " Assim como os secretos movimentos de seu entendimento são manisfestados pela voz, assim não parece que as ervas falam ao médico curioso por sua assinalação, descobrindo-lhe... suas virtudes interiores ocultas sob o véu do silêncio na natureza?".
... os olhos são estrelas porque espalham a luz sobre os rostos como os astros na obscuridade, e porque os cegos são no mundo como os que têm clarividência no mais soturno da noite.