Mr. Blues & Lady Jazz

Ele se sente morto. Não. Morto seria um estado. Mas ele não pertence. Não está e nunca esteve. Se esteve não tem lembrança, memória, consciência. Está nulo e sente que será nulo para sempre. Vivendo ao contrário, sentindo ao contrário, está avesso aos homens, rascunhando no verso da vida seu esforço maníaco de andar reto em linhas tortas. Já invocou os nomes de todos os demônios mas nem um se interessa pelo homem sem alma. Se o vento pode atravessar o seu corpo, poderia sentir como uma dádiva mas quando a luz atravessa o seu corpo é porque está irremediavelmente condenado a vagar pela terra desolada. Como se monta a cronologia de um homem? Entre as repetições infinitas e insensatas de nascimento e morte, alternância diária entre sofrimento consciente e morte induzida, constantes mortes em vida e heroicos renascimentos, como ordenar o verdadeiro início e fim? Rodas entrelaçadas girando em rotações diferentes, de diferentes raios e em diferentes direções, transferindo o peso e a velocidade do destino, qual é o instante fatal em que acontece a sutil e ao mesmo tempo crucial mudança na vida de um homem? Qual é o momento primeiro para o isolamento perpétuo? Solidão. Este é o mal, justificativa e manifestação primitiva da dor de termos nascido.