O amanuense Belmiro



(...)Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado . Lembra-me o dia em que só, na varanda da velha fazenda, numa hora por si mesma de intensa melancolia - a hora rural do pôr-do-sol -, fiquei a percorrer, com um vago olhar, as colinas e os vales que se desdobravam até o azul longínquo da serra, limite do meu mundo antigo.
     Na verdade, os olhos apenas refletiam imagens, logo as devolvendo para o exterior, porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o meu mundo de dentro, rico de uma paisagem mais numerosa, que só possuía, em comum com aquele, os esfumados traços de coisas que vão se extinguindo, ao morrer da luz, e um sinal de sofrimento ou de tristeza, que, em certas oportunidades, nos parecem estar no fundo e na forma de cada coisa, em vez de se localizarem em nós mesmos.
     Em vão busquei nas linhas, cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva, que se apresentavam aos meus olhos, as linhas, cores e aromas de outros dias, já longínquos e mortos.
     Inútil tentativa de viajar o passado, penetrar no mundo que já morreu e que, ai de nós, se nos tornou interdito, desde que deixou de existir, como presente, e se arremessou para trás. Vila Caraíbas, a montanha, o rio, o buritizal, a fazenda, a gameleira solitária no monte - que viviam em mim, iluminados por um sol festivo de 1910, ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas, naquela noite de 1907 - ali já não estavam. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas, não encontrei senão pobres espectros. A namorada, a lagoa.
     (...)
     O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. Mas, devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência, querendo cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. A lagoa se foi drenada e convertida em pasto. Como se pode suprimir a lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos um ser humano, vivo, fremente.
     (...)
     Percebi que vago delírio se apossara de mim, envolvendo-me naquela onde de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte, que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo .
     (...) As coisas não estão no espaço, leitor; as coisas estão no tempo. Há nelas ilusória permanência de forma, que esconde uma desagregação constante, ainda que infinitesimal. Mas não me refiro à perda da matéria, no domínio físico, e quero apenas dizer-lhe que, assim como a matéria se esvai, algo se desprende da coisa, a cada instante: é o espírito cotidiano, que lhe configura a imagem no tempo, pois lhe foge, cada dia,  para dar lugar a um novo espírito que dela emerge. Esse espírito, sutil representa a coisa, no momento preciso em que com ela nos comunicamos. Em vão o procuramos depois: só veremos outro, que nos é estranho.
     Na verdade, as coisas estão é no tempo, e o tempo está é dentro de nós. A essência das coisas, em certa manhã de abril, no ano de 1910, ou em determinada noite primaveril, doce, inesquecível noite, fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-las na duração do nosso espírito.