O Dia do Curinga (Jostein Gaarder)
– Na praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada sua obra. Depois destrói tudo e constrói um novo castelo. Da mesma forma, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. Aqui nesta praça se escreveu a historia do mundo; aqui os acontecimentos foram gravados na memória das pessoas, e depois novamente apagados. Na Terra, a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia nós somos modelados... com o mesmo frágil material de nossos antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob nossos pés. Não temos sequer areia sob os pés. Nós somos areia.
Fiquei tão chocado com o que ele disse que cheguei a estremecer. E não apenas com o que ele disse mas também com a forma como ele disse.
– Não há um lugar onde possamos nos esconder para escapar do tempo – continuou meu pai. – Podemos escapar de reis e imperadores, e talvez até de Deus. Mas não podemos escapar do tempo. O tempo nos enxerga em toda parte, pois tudo à nossa volta está mergulhado nesse elemento infatigável.
Tive de concordar com o que meu pai dizia. Mas ele estava só no começo de sua longa palestra sobre o tempo e sua ira implacável.
– O tempo não passa, Hans- Thomas, e não é um relógio. Nós passamos e são os nossos relógios que fazem tiquetaque. O tempo devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói antigos monumentos, e engole gerações. Por isso que falamos dos “dentes de engrenagem do tempo”: o tempo mastiga, mastiga... e somos nós que estamos no meio de seus dentes.
– Os antigos filósofos discutiam sobre essas coisas? – perguntei.
Ele confirmou.
– Por um breve espaço de tempo fazemos parte da extraordinária agitação deste mundo. Andamos pela Terra como se isso fosse uma coisa evidente no mundo. Você viu como as pessoas se agitam como formiga lá na Acrópole? Mas toda aquela agitação vai desaparecer. Vai desaparecer e ser substituída por outra, pois sempre há outras pessoas prontas, à espera.
Sempre surgem novas idéias. Nenhum tema se repete, nenhuma composição é escrita duas vezes... Nada é tão complicado e tão precioso quanto um ser humano, meu filho. Apesar disso, somos tratados como futilidades baratas!
Achei tão pessimista tudo o que ele dizia que não pude deixar de introduzir um comentário em toda aquela história.
– É tudo realmente tão ruim assim? – perguntei. – Nós...
– Fique quieto! – disse ele, cortando o que eu ia dizer. – Vagamos por esse mundo como personagens de uma aventura maravilhosa – continuou. – Cumprimentamo-nos e sorrimos uns para os outros como se quiséssemos dizer: “Oi, aqui estamos nós vivemos juntos nesse momento! Dentro da mesma realidade... ou da mesma história’’. Não é inacreditável, Hans- Thomas? Vivemos num planeta no universo. Más logo seremos varridos do tabuleiro. Abracadabra e... pronto! Desaparecemos.
Olhei-o de soslaio. Não havia outra pessoa no mundo que eu conhecesse melhor do que ele. E ninguém que eu amasse melhor do que ele. Mas o modo como eu via meu pai ali parado, os olhos passeando sobre os blocos de mármore da antiga praça de Atenas, ,e dava a sensação de enxergar nele algo estranho, de desconhecido. Será que não era meu pai que fazia todo aquele discurso? Será que algum momento o deus Apolo ou alguma outra divindade não teria passado a usar meu pai para fazer aquela apresentação a sua própria? Creio que todos esses pensamentos realmente me passaram pela cabeça.
– Se nós vivêssemos em outro século – prosseguiu meu pai –, dividiríamos nossas vidas como outras pessoas. Nesse momento só podemos cumprimentar, sorrir e desejar bom-dia para milhares de nossos contemporâneos: “Ei você! Que coisa fantástica podemos compartilhar do mesmo tempo!”. Talvez algum dia eu esbarre em alguém. E nesse momento eu abra uma porta e diga: “Olá, alma minha!”. – Mostrou com ambas as mão s como fazia para abrir a porta da alma. – Estamos vivos, ouviu bem? Mas só esta vez. Podemos dizer, de braços abertos, que existimos. Mas logo somos colocados de lado e enfiados nos sacos das trevas da história. Pois somos criaturas sem retorno. Somos parte de um eterno baile de máscaras , em que os mascarados vêm e vão. Só acho que merecíamos coisas melhor, Hans- Thomas. Você e eu merecíamos ter nossos nomes gravados em alguma coisa eterna, que não fosse apagada como o mar que destrói o castelo de areia.
Sento-se num bloco de mármore e respirou fundo. Só então entendi que ele devia ter se preparado durante muito tempo para esse discurso que faria aqui, na antiga praça do mercado de Atenas. E na verdade não falava comigo, ou pelo menos não só comigo. Conversava com os grandes filósofos gregos. O discurso do meu pai se dirigia a um passado remoto.
Quanto a mim, apesar de ainda não ser um filosofo feito, achei que tinha o direito de dar a minha opinião. Então, perguntei:
– Você acredita que haja alguma coisa que não possa ser levada como a areia do castelo que a água do mar destrói?
Acho que minha pergunta o tirou de uma espécie de transe, pois só nesse momento ele parecia realmente falar comigo. E só comigo.
– Aqui – disse ele, e apontou para sua cabeça. – Aqui dentro tem alguma coisa que não pode ser levada.
Por um momento fiquei com medo de que ele tivesse perdido completamente a razão. Mas ele não estava se referindo apenas à sua própria cabeça.
